Se tens um cão, provavelmente já passaste pela situação de encontrar objetos roídos em sua casa. Isso é bastante comum em cães, principalmente quando são bebés, cachorros ou puppies. Contudo, o comportamento natural de roer do cão pode tornar-se um problema sério se não for controlado. Além de danificar objetos e móveis, roer determinadas coisas pode ser perigoso para a saúde dele, uma vez que, ao engolir pedaços desses objetos, pode ser alvo de problemas como obstruções gastrointestinais.
Mastigar ou roer é um comportamento natural do cão, mas também pode ser uma manifestação de que algo não está bem, ou seja, que há ausência de bem-estar, e por isso, nesse caso, esta manifestação deve ser encarada como um pedido de ajuda. Mas então como saber se estou perante uma situação normal? Eu ajudo-te!
Primeiro vou falar-te das principais causas que levam os cães a roer e, depois, de algumas formas de solucionares o problema.

Alguns motivos pelos quais os cães roem:
Mudança de Dentição
Os cães jovens podem roer para aliviar a dor e a comichão associadas à mudança de dentes, um pouco à semelhança do que acontece com os bebés humanos. O período em que isto ocorre pode variar de acordo com a raça e outros fatores, mas de forma geral, começa cerca dos 3 meses e termina aos 7 meses.
Instinto de mastigar
Os cães têm um forte instinto de mastigar que remonta aos seus ancestrais selvagens, que precisavam de usar os seus dentes para rasgar e mastigar a carne que comiam para sobreviver. Mastigar é um comportamento perfeitamente normal para cães de todas as idades. Cães selvagens e domésticos passam horas a mastigar ossos. Essa atividade mantém as mandíbulas fortes e os dentes limpos. Os cães adoram mastigar ossos, paus e praticamente qualquer outra coisa disponível. Os cães mastigam para se divertir, mastigam porque os estimula, mas também para aliviar a ansiedade.
Curiosidade
Os cães são animais curiosos e podem roer coisas para descobrir o que são e como funcionam. É uma forma de explorarem o mundo que os rodeia.
Tédio ou falta de estímulos
Quando os cães que não recebem estímulos suficientes, sejam mentais ou físicos, podem roer como uma forma de entretenimento. Isto é especialmente comum em cães que ficam sozinhos por longos períodos. Aconselho-te a leres o que escrevi sobre a natureza do cão, para compreenderes melhor este tema.
Ansiedade e stress
Cães que estão ansiosos ou stressados podem roer como uma forma de aliviar a tensão emocional. Quando se trata de ansiedade de separação, geralmente só mastigam ou mastigam mais intensamente, quando deixados sozinhos. Eles também exibem outros sinais de ansiedade de separação, como chorar, ladrar, andar de um lado para o outro, inquietação, micção e defecação.
Fome
Animais que não recebem comida suficiente ou que estão habituados a receber comida sempre que pedem, podem roer como uma forma de tentar encontrar comida. Um cão com uma dieta com restrição calórica também pode roer e destruir objetos na tentativa de encontrar fontes adicionais de nutrição. Os cães costumam direcionar este tipo de mastigação para objetos relacionados com comida ou que cheiram a comida.
“Chuchar” em tecidos
Alguns cães lambem, chucham e mastigam tecidos. Alguns especialistas que acreditam que este comportamento resulta do desmame precoce (antes das 7 ou 8 semanas de idade). Se for um comportamento de sucção de tecido que ocorre por longos períodos e é difícil distraí-lo, é possível que o comportamento se tenha tornado compulsivo. E neste caso deverás procurar ajuda junto de um médico veterinário especialista em comportamento animal.
Sabendo agora as principais causas que estão por trás do “roer”, a primeira coisa a ter em conta é que não podes impedir um cão de roer. No entanto, podes sim reduzir a manifestação desse comportamento (no caso de ser representativo de um problema) ou direcioná-lo para outros objetos/atividades.
Dicas para fazer com que o cão deixe de roer objetos indesejados:

Aliviar desconforto da mudança de dentição
Algumas das recomendações para aliviar este desconforto incluem arrefecer os brinquedos e a comida no frigorífico, ou amolecer a ração.
Brinquedos adequados
Brinquedos de borracha (ex.: KONG) ou de nylon (ex.: Nylabone) são resistentes e não oferecem riscos à saúde do cão. Cornos de búfalo, cascos de vaca, hastes de veado são outras alternativas naturais e que também apresentam bons resultados. Devem, no entanto, ser dados sob vigilância de um humano. Nota: dá apenas ao teu cão ossos naturais que são vendidos especificamente para mastigar. Não dês ossos cozidos, como sobras ou asas de frango, que podem lascar e causar ferimentos. Em caso de dúvida fala sempre com um veterinário.
Dedica algum tempo a observar o teu cão, percebe qual o tipo de brinquedo favorito e aposta nele. Muitas vezes ele também precisa da tua ajuda para o segurar de forma a iniciar a mastigação daquele objeto novo ou porque já está tão pequeno que não o consegue segurar. Além disso, é um momento de interação humano-cão, importante para o bem-estar dele. O ideal é introduzir algo novo com frequência ou alternar os brinquedos a cada dois dias, para que ele não fique entediado.
Treino
No entanto, apenas fornecer as coisas certas para mastigar pode não ser o suficiente para evitar uma mastigação inadequada. Os cães precisam de aprender o que podem mastigar e o que não podem, ensinando, por exemplo o comando “não”, sempre que ele estiver a roer algo que não deve, e reforçando o comportamento correto com biscoitos, festas e elogios. Outro aspeto importante é fazer com que ele não fique confuso, ao oferecer-lhe objetos que, por norma, não queres que ele roa, como um chinelo velho por exemplo, de forma a que ele compreenda bem a diferença entre os objetos que pode roer e que não pode.
Enriquecimento ambiental
Cães que ficam entediados são mais propensos a roer coisas. Por este motivo e pelo bem-estar dele é importante oferecer atividades físicas e mentais, como caminhadas, brincadeiras e jogos de inteligência. Identifica os momentos do dia em que o cão tem maior probabilidade de mastigar e dá-lhe um desafio (como um KONG Wobbler ou um tapete de farejar). Podes e deves inclusivamente oferecer a alimentação diária, neste tipo de dispositivos e não no prato, que não proporciona qualquer tipo de estimulação mental e contribui para o tédio.
Exercício físico. Corridas, brincadeiras contigo e com outros cães devem ser atividades regulares no dia-a-dia do teu cão.
O treino, comandos de obediência ou truques são também uma boa forma de estimulação, sobretudo mental e que, ao contrário do que muitos humanos pensam é mais cansativa do que o exercício físico. Esta dica é sobretudo útil para cães que têm bastante energia! Tipo eu ah ah.
Tempo com o Humano
Nada substitui as interações entre o cão o seu humano, por isso não menosprezes a importância que Tu tens no dia do teu melhor amigo. Uns dias terá mais disponibilidade, outros dias menos. Mas reserva sempre algum tempo para ele.
Vigiar o cão
É sempre importante vigiar o cão, sobretudo quando ele está a roer determinados brinquedos que exigem supervisão (seguir recomendações das embalagens ou do veterinário) ou caso esteja perante objetos perigosos ou que desejas que ele não roa.
Quando não for possível fazer esta vigilância, deves deixá-lo numa zona restrita (existem parques que podes comprar ou crates – exigem algum treino de adaptação, mas são uma ótima ferramenta). As câmaras de vigilância também são um ótimo instrumento, mas não substituem os anteriores, pois caso aconteça algum acidente que exija auxílio imediato, não conseguirás atender à situação em tempo útil.
Casa à “prova de cães”
Guarda os objetos valiosos ou perigosos até ter certeza de que o comportamento de mastigação do cão está restrito aos itens apropriados. Como te sentirias se estivesses a seguir uma dieta alimentar restrita e te colocassem perante um buffet? Já pensaste? Roupa, livros, sapatos, fios elétricos, produtos de limpeza, são só alguns exemplos daquilo que deves guardar e tirar do alcance do cão. No meu caso, temos cancelas em todas as portas e nunca ficava sozinho em nenhuma divisão. Com o tempo e treino, e um dia enriquecido, já me é permitido andar em algumas zonas sozinho. Vigia e conhece o teu cão de forma a perceberes o comportamento dele. Na dúvida, porque não podes adivinhar o seu comportamento e nem sempre estarás por perto, protege-o do maior número de itens possível. Nós (eu e alguns amigos) às vezes fazemos coisas inacreditáveis. Nunca duvides das nossas capacidades criativas ah ah.
Repelentes
Algumas plantas, frutas e frutos, possuem propriedades repelentes para cães. No entanto, também existem produtos comerciais à venda para esse efeito. Podes borrifar os objetos com a solução ou aplicá-la num tecido e, em seguida, passar no local onde não queres que o animal roa. No entanto, não te esqueças que isto é apenas uma dica extra para te ajudar, enquanto adotas todas as outras medidas. Não é uma resolução para o problema.
Ansiedade e frustração
Por vezes, podes deparar-te com situações de ansiedade e frustração e que não são resolvidas apenas com estas medidas. Nesse caso, deves procurar ajuda. Na minha situação, tive de recorrer a dois treinadores e um médico veterinário especialista em comportamento.
O que não fazer
É sempre bom lembrar também o que não deves fazer. Sobretudo porque provavelmente ouvirás de muita gente e, talvez até da tua própria cabeça, que “sempre eduquei os meus cães assim e resultou”. Pois, tenho a dizer-te que o facto de ter “resultado”, não significa que o teu cão tenha sido educado, que ele tenha aprendido e que tenhas resolvido o problema dele. Possivelmente resolveste só o teu problema e poderás estar perante um cão com medo do seu próprio tutor e com ausência de bem-estar, por não ter as suas necessidades satisfeitas. Por isso, duas coisas que não deves fazer quando o teu cão roer coisas que não deve:
- Não lhe mostres o estrago que ele fez nem lhe batas, repreendas ou castigues. Ele não consegue conectar sua punição com algum comportamento que ele fez horas ou mesmo minutos atrás. Ele só vai perceber que o estás a ameaçar e mostrará sinais comportamentais de apaziguamento, que mostram que ele não quer conflito e não que ele percebeu que fez algo errado.
- Não amordaces o teu cão para evitar a mastigação.
Fontes: American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA); American Animal Hospital Association (AAHA).